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Poços milenares da Índia ajudam a enfrentar a crise hídrica

Poços milenares da Índia ajudam a enfrentar a crise hídrica

Poços milenares da Índia ajudam a enfrentar a crise hídrica

Estruturas históricas são restauradas e voltam a garantir abastecimento em áreas afetadas pela crise hídrica

Estruturas milenares que fazem parte do patrimônio histórico e do sistema tradicional de gestão hídrica da Índia estão sendo recuperadas e transformadas em aliadas no enfrentamento da crise de água no país. Conhecidos como poços escalonados — ou baolisbawrisvavs e pushkaranis, a depender da região —, esses reservatórios antigos voltaram a funcionar após projetos de restauração que unem conhecimento ancestral e soluções contemporâneas de sustentabilidade.

A iniciativa é liderada pela Environmentalist Foundation of India (EFI), organização sem fins lucrativos que já restaurou mais de 600 corpos d’água naturais e artificiais em diferentes regiões indianas. Entre lagos, lagoas e nascentes, os poços escalonados passaram a integrar, mais recentemente, o escopo de atuação da entidade, diante do avanço da escassez hídrica e da degradação desses patrimônios históricos.

“A restauração dos poços escalonados é o próximo grande desafio que queremos assumir, porque temos uma responsabilidade maior na proteção desses patrimônios históricos, eles são um testemunho da inteligência humana”, afirmou o ambientalista Arun Krishnamurthy, fundador da EFI, à CNN. Segundo ele, essas construções revelam um profundo conhecimento científico e artesanal, desde os materiais utilizados até as técnicas de engenharia e paisagismo empregadas há centenas de anos.

Construídos a partir do século VI d.C., especialmente nas regiões mais áridas do oeste e noroeste da Índia, como Gujarat e Rajastão, os poços escalonados foram projetados para captar e armazenar água das monções, garantindo abastecimento durante longos períodos de seca. Além disso, funcionavam como espaços sociais, pontos de descanso para viajantes, locais de encontro comunitário e até templos subterrâneos, oferecendo sombra e alívio térmico em meio ao clima extremo.

Até agora, a EFI concluiu a restauração de dois poços escalonados e tem outros seis projetos previstos para 2026. Diferentemente dos lagos naturais, essas estruturas exigem conhecimento especializado, já que seus projetos seguem métodos antigos de construção. Foi o que ocorreu no primeiro grande trabalho da organização, em 2022, no Moosi Rani Sagar, um poço escalonado histórico localizado na cidade de Alwar, no Rajastão. Situado entre algumas das montanhas mais antigas da Índia, o Moosi Rani Sagar era alimentado por um reservatório na encosta e por um canal de cerca de 900 metros, equipado com um tanque de sedimentação. Esse sistema permitia a filtragem natural da água, removendo detritos e sedimentos antes que ela chegasse ao poço. Com o passar do tempo, porém, o abandono, a falta de gestão pública e o descarte irregular de lixo transformaram a estrutura em um depósito de resíduos.

A restauração exigiu a remoção de ervas daninhas invasoras, dragagem do lodo acumulado, limpeza das pedras e bombeamento da água contaminada. O trabalho contou com o apoio da Fundação Hinduja e da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco. Hoje, além de atrair visitantes, o Moosi Rani Sagar voltou a contribuir com água limpa para o abastecimento público de uma região frequentemente castigada pela seca.

A EFI também iniciou o planejamento da recuperação de um poço escalonado em Devanahalli, próximo a Bangalore. Além dos problemas de poluição e assoreamento, o local demanda reforço estrutural das paredes de pedra, o que levou a equipe a buscar artesãos locais familiarizados com as técnicas tradicionais — um desafio que, segundo Krishnamurthy, deverá se repetir em muitos projetos futuros.

Estima-se que existam mais de 3.000 poços escalonados na Índia, muitos deles atualmente em ruínas, soterrados pela vegetação ou transformados em lixões. Em alguns casos, a restauração revelou estruturas escondidas por décadas. “Quando começaram a limpar o que pensavam ser um lixão, encontraram a estrutura de um poço escalonado sob o lixo”, relatou Vikramjit Singh Rooprai, defensor do patrimônio cultural e escritor que atua junto ao Aga Khan Trust for Culture.

Um desses exemplos é o Purana Qila Baoli, em Delhi. “Após a restauração, o poço passou a ter tanta água que irriga todos os gramados do Forte Antigo de Delhi”, afirmou Rooprai. Para ele e para Krishnamurthy, histórias como a do Purana Qila e do Moosi Rani Sagar mostram o potencial desses sistemas antigos para fornecer milhões de litros de água a cidades e vilarejos em todo o subcontinente.

Com informações de Ciclo Vivo.

Sou Wellington, um entusiasta apaixonado pelo mundo da engenharia. Minha dedicação e amor pela engenharia são inegáveis. Passo horas estudando e explorando as mais recentes inovações e tecnologias, sempre buscando entender e compartilhar minhas descobertas.